Suaposta

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Quando a lei da natureza fala mais forte

Olá amigos leitores, diferente de outras semanas, quando procuro traduzir o que os cavalos clássicos costumam fazer, hoje irei falar de um páreo de claming em especial, ocorrido na última segunda-feira, no Hipódromo da Gávea.

Lógico que o festival de claiming talvez tenha sido um marco para o turfe brasileiro, pois desde outubro de 1999, quando ingressei no mundo das corridas, que observo pela primeira vez uma reunião com 10 páreos, onde nove são de claiming. Só me restou uma dúvida: porquê não todos os páreos? Será que faltou cavalo interessado em trocar de cocheira?

Bem, mas vamos ao que interessa, aos cavalos e à corrida.

No 4º páreo do programa, uma milha na raia de areia (era para ser grama, mas toda a programação foi também trocada no dia), o ditado "os últimos serão os primeiros" combina perfeitamente com o que ocorreu.

Homem da Lei, o nosso destaque da semana, topou falar sobre a corrida em que literalmente decolou nos metros decisivos para vencer.

"Puxa, desde novembro de 2006 que não participo de provas clássicas! Para mim é uma surpresa estar sendo lembrado no CERCA MÓVEL", agradeceu o defensor de Leopoldo José Cury, por coincidência, também treinador do alazão e que na última semana de corridas, teve 100% de aproveitamento.

Bem, após eu deixar claro para Homem da Lei que aqui no CERCA MÓVEL o que importa são sempre os cavalos, não importando se são ou não clássicos, o mesmo decidiu continuar.

"Naquele dia, não estava muito disposto ao trabalho. Puxa, era feriado nacional, eu queria era curtir minha cocheira, o ar puro da serra, mas quando me dei conta, já estava sendo embarcado no caminhão, com destino ao Hipódromo da Gávea. No caminho, me senti meio enjoado, porque na noite anterior, por ter sido véspera de feriado, decidi participar de uma festa na cocheira ao lado e acabei me excedendo nos comes e bebes. Bem, ai já viu, desce a serra, o remelexo do caminhão, a diferença de pressão, enfim, cheguei na Gávea totalmente enjoado", revelou o cavalo de 5 anos.

Durante o cânter para o 4º páreo, Homem da Lei demonstrava que não estava muito disposto a correr.

"Gosto muito de ser conduzido pelo Carlos Lavor, que já havia me conduzido nas duas primeiras corridas que fiz na Gávea, mas a minha barriga doía muito. Sabia, bem no fundo, que a culpa era de uma alfafa estranha que haviam servido na festa. Estava me sentindo inchado, mas lá fui alinhar para a carreira mesmo assim", falou, após fazer uma careta. Parecia que voltava a sentir as mesmas dores na barriga.

Sem a presença de Que Pacto e Gidaz, a pista de areia ficou bem espaçosa, pois apenas seis competidores alinharam para a prova, sendo um deles, como diria o Pedro Bial, o nosso herói Homem da Lei.

Dada a largada da prova, ficou claro que o pilotado de Lavor não estava nem um pouco interessado em correr.

"Eu vi o És Simpático disparar na frente, seguido de Ojos Claros lá pela cerca de fora, com Xexano e Risco Zero também próximos. Eu só larguei porquê o Lavor pediu, pois por mim, continuava dentro do box", confessa.

Enquanto os competidores continuavam abrindo vantagem e tentando ir ao encontro do ponteiro És Simpático, Homem da Lei ia ficando cada vez mais para trás.

"Juro que teve uma hora durante a reta oposta e a curva que não conseguia enxergar o ponteiro És Simpático, tamanha a distância que estávamos um do outro. Foi quando na metade da curva, aconteceu. Minha barriga começou a dar uns tremeliques estranhos e percebi que necessitava urgente de um banheiro. Como sou um cavalo de respeito, detentor de colocações clássicas, inclusive em Grupo 1, ficaria feio sujar à raia da Gávea durante o páreo, sendo filmado para todo o país. Então, por junto à cerca interna, tratei de aumentar o passo. Te garanto que nunca imaginei que pudesse alcançar És Simpático, pois nossa diferença deve ter chegado a uns 20 corpos, mas a pista de areia tinha diversos espaços vazios e tratei de ir costurando um a um os rivais", relembra, ele que ao correr os primeiros 100 metros da reta final, já tinha deixado dois competidores para trás e emparelhado na terceira posição.

"Vi o És Simpático ser ameaçado por Xexano nos metros decisivos, mas não tive como me conter e atrapalhei a conquista do defensor do Stud Palura e os turfistas que o haviam eleito favorito absoluto. Lembro que o Lavor procurava o lado da raia com o menor tráfego, pois eu corria feito um louco, então ele se equilibrava sobre o meu dorso e só desviava dos outros competidores. Eu estava desesperado para sair logo da raia e tirar aquele ‘peso’ de dentro de mim. Para se ter uma idéia, só fui saber que venci a prova, depois que me chamaram para a foto da vitória. Mas naquele momento, já havia me aliviado", conta aos sorrisos, o cavalo de 522kg.

Mesmo com um motivo um pouco "estranho" para ganhar uma corrida, o que vale é que o filho de Shudanz e Gold Funds (Rêve Doré), criado pelo Interbanc Agropecuária Ltda., garantiu a quinta vitória da campanha, sendo a segunda no Hipódromo da Gávea.

"Sem dúvidas, o destino me pregou uma peça na última segunda para que eu voltasse a ser notícia, visto que no passado, era sempre bem comentado. Já defendi as cores do Marcio Toledo, presidente do clube paulista, que também me criou. Lembro que na minha primeira incursão clássica, em 2005, fui 3º no GP Juliano Martins (G1-1600mG) para Parfum Parfait (o vencedor) e Éumsonho, a apenas 2 corpos. No mesmo ano, durante a realização da Quádrupla Coroa Paulista, obtive as 2ª e 3ª colocações nos GP’s Jockey Club de São Paulo (G1-2000mG) e Consagração (G1-3000mG). Em 2006, fui 4º colocado no Clássico Antonio da Silva Prado (L.-2400mG). Depois de ficar um bom tempo sem nenhuma grande exibição, fui negociado e trazido para o Rio de Janeiro em setembro de 2007. Esse ano começou diferente para mim, pois venci na primeira inscrição, em 21 de janeiro. Agora, essa vitória da última segunda-feira, apesar de ter sido por motivos de forças maiores, também me rendeu meu minuto de fama", encerrou satisfeito o Homem da Lei, que com certeza deverá voltar a brilhar em breve, pois categoria e classe não lhe faltam.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

O valor de uma verdadeira amizade

Olá leitores, desculpem pela demora na atualização, mas aqui estamos por mais uma semana e o tema escolhido fui buscar de longe, fora das pistas brasileiras, pegando carona em uma matéria da TV Globo, exibida na manhã do último domingo, sobre as corridas da Dubai World Cup, realizadas no dia 29 de março.

A equipe de jornalistas falou sobre o dia da corrida, dos modos dos turfistas que freqüentam o Hipódromo de Nad Al Sheba e do melhor cavalo do mundo da atualidade, Curlin. Para quem deseja assistir a matéria, basta clicar em http://video.globo.com/Videos/Player/Esportes/0,,GIM815059-7824-CORRIDA+DE+CAVALOS+E+ATRACAO+EM+DUBAI,00.html.

Sendo que o que mais me impressionou no desenrolar do noticiário foi a aparição de Curlin, o grande astro do momento, ao lado de Poncho. O tordilho é o grande amigo do filho de Smart Strike e Sherriff’s Deputy (Deputy Minister), de propriedade da Midnight Cry Stables & Stonestreet Farm.

Agora vocês devem estar me perguntando, mas porquê esse interesse? É simples. Vasculhei toda a internet para descobrir a filiação ou qualquer outra informação sobre Poncho e não consegui. Então decidi entrar em contato com o próprio Curlin. O 4 anos, detentor de 11 vitórias na campanha, sendo quatro em Grupo 1, e quase US$ 9 milhões em prêmios, ficou feliz com o contato.

“Está mais do que na hora de reverenciar o meu amigo Poncho. Até hoje não sei o nome dos pais dele, pois o mesmo não gosta de falar sobre isso. Sendo que é o único que me entende, por isso sempre está comigo. É o meu assessor pessoal”, revelou o cavalo do ano.

Em todas as viagens que Curlin necessita fazer, Poncho sempre está presente. É um amigo fiel.

“As pessoas podem não entender muito bem, mas sou um cavalo inseguro, por isso que não iniciei a campanha aos 2 anos. Adorava correr, mas como sou muito tímido e não sabia controlar essa timidez, quase machuquei muita gente que vinha me observar no box. Até o dia que o meu treinador, Steven Asmussen, o trouxe para a cocheira. Poncho conversou pouco, mas o suficiente para conquistar minha confiança, desde então, passou a ser um amigo inseparável.”, relembra o campeão, que após o encontro e o surgimento da amizade, passou a mostrar seu valor na raia.

No último compromisso do cavalo, nos Emirados Árabes, quem primeiro chegou em Nad Al Sheba para conferir a cocheira em que Curlin ficaria foi Poncho.

“Ele é muito correto! Chegou em Dubai, olhou as cocheiras, conferiu se tinha tudo o que eu precisava, depois me ligou e disse que podia viajar tranqüilo, que não teria problemas na estadia e que iria vencer mais um Grupo 1. Sorri e indaguei ao mesmo como sabia que eu venceria? No que o mesmo respondeu com um relincho. ‘Porquê quando você deitar nas camas que fazem aqui, vai ficar maluco. Eu estou adorando. Isso sem falar nas éguas árabes, tem cada uma’, brincou e desligou o telefone. Ele não é muito de falar, mas vez ou outra solta suas piadas”, concluiu Curlin.

O cavalo do ano nos Estados Unidos em 2007, confessa que o amigo tordilho, que não é Puro-Sangue Inglês, deveria ter tido mais oportunidades.

“Ele não é Puro-Sangue Inglês, mas é muito mais digno que muitos PSI. Devo todas as minhas conquistas à sua presença e aos seus conselhos. Para quem não sabe, eu estava disposto a não correr a Jockey Club Gold Cup (G1-2000mA), pois tinha corrido, e vencido, há 30 dias a Breeders’ Cup Classic (G1-2000mA). Não queria me desgastar, entende. Então estava na cocheira, sem vontade alguma de acordar cedo no dia seguinte para treinar, quando Poncho começou a falar, ‘não seja tolo, você está em grande forma, corra e vença, pois mais cedo do que pensas, estarás num haras, cobrindo as melhores éguas do mundo’. Essas palavras foram, sem dúvidas, a animação que eu precisava. Acordei na madrugada, primeiro que Poncho, para ir à raia.”

A viagem para os Emirados Árabes não estava na lista de prioridades de Curlin, mas outra vez o amigo Poncho quem lhe pressionou. “Quando ouvi o boato na cocheira de que eu teria de encarar mais de 12 horas de vôo para correr do outro lado do mundo, me desanimei de tal forma que cheguei a perder 10kg numa noite. Sendo que me chega Poncho, com a cabeça toda enfaixada, perguntando se estava parecido com um sheik, porque estava pretendendo formar um harém em Nad Al Sheba e como era o melhor amigo do cavalo que iria roubar a festa árabe, já estava treinando. Ri muito naquele dia e me convenci de que tinha de ir à Dubai.”

A vitória na Dubai World Cup (G1-2000mA) foi uma das mais fáceis da campanha de Curlin, pois deixou o argentino Asiatic Boy, segundo colocado, com quase 8 corpos de diferença, a maior margem desde a criação da grande prova, há 13 anos. Marcou 2’00”15 para a distância, mesmo largando pela baliza 12.

O êxito foi o que faltava para a IFHA - Federação Internacional de Autoridades Hípicas – coloca-lo no topo do ranking, com 130 de rating, mas nem por isso Curlin esquece do velho amigo.

“Se cheguei onde estou, sou honesto em afirmar, foi graças à amizade de Poncho. O tordilho me ensinou a ser mais calmo, a dar valor a minha capacidade de correr, enfim é um excelente conselheiro. Encontrar um amigo verdadeiro no mundo das corridas é uma tarefa árdua, mas fui brindado com esse cavalo maravilhoso, do qual tenho a honra de chamar de amigo”, encerrou Curlin, quando Poncho, enfim, decidiu falar.

“É uma honra poder ser amigo de um craque como Curlin. Ele é uma fera na pista. Sendo que faltava a confiança em si mesmo. Hoje em dia, ele atura um velho cavalo tordilho como eu porque é um bom amigo. Se fosse outro, já teria me mandado embora, pois já não precisa de meus conselhos. Está com 4 anos, é experiente, ganhador internacional, enfim o cavalo do ano”, encerra Poncho, com uma lágrima no olho.

Sem dúvidas, o valor de uma verdadeira amizade, seja entre rico ou pobre, branco ou negro, PSI ou uma raça qualquer, rende ótimos frutos. Sendo assim leitores, siga o exemplo de Curlin e Poncho e preservem seus amigos leais, por mais distantes que os mesmos possam estar.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A revolta de um favorito


Os leitores já devem ter percebido que na maioria das vezes eu procuro dar mais atenção aos eqüinos clássicos. Pois bem, apesar das provas de Grupo 1 e 2 e das demais Provas Especiais realizadas no último final de semana, irei dedicar o Blog desta semana a Tastro, um potro de 3 anos que vem correndo páreo de turma na Gávea.

Na última segunda-feira, estive no Hipódromo da Gávea para presenciar a corrida da égua Xoema, do amigo jornalista-locutor-editor, enfim, do multimídia Marco Aurélio Cardoso Ribeiro, para mim o craque "Matungo", mas para a minha surpresa, a noturna carioca prometia muitas emoções e decepções!

Corrido o 1º páreo, Zap Girl saiu da raia me cumprimentando e cobrando mais a minha presença no prado. A 6 anos do Stud Dom Luluca estava satisfeita em voltar a vencer.

Acompanhei de perto a entrada de Tastro para o 2º páreo. Mesmo ele sabendo que não sou de jogar, comentou comigo. "Hoje você pode brincar de que joga muito. Manda 100 pratas em mim que não tem erro, voltará para casa com o mesmo valor."

Sem dúvidas, era impossível não marcar o filho de Kahyasin e Queen’s Special (Emmson), criado pelo Haras Garcez Castellano. Na estréia no Rio, não venceu por detalhe, mas com o aumento da distância, era impossível perder.

Não sei se tem mais gente que escuta os eqüinos, mas depois que Tastro confidenciou que estava em grande forma, a pule dele ficou abaixo de R$ 1,00.

Dada a largada, Portainer foi para a ponta, seguido de Holgorio, com Tastro, sem fazer força, em 3º. O potro avisava aos rivais. "Não fechem a porta, que estou próximo de vocês."

Na variante, o defensor do Haras Verde e Preto já emparelhava com o ponteiro Portainer. "E ai amigo, quer que eu corra agora ou daqui a pouco?", desafiava Tastro, que sabia da sua ótima condição física.

Ao entrar na reta, de galope, Tastro dominou a situação. "Hoje eu marco o primeiro ponto na Gávea. Faltam poucos metros e estou tinindo", eu lia nos lábios do alazão.

Quando o locutor avisou que Portainer voltava a atacar pela liderança, Tastro tratou de falar para o jóquei Acedenir Gulart, que o conduzia. "Vamos, hora de você afrouxar as rédeas e deixar eu partir. Faltam menos de 300 metros para o disco."

O potro falou, mas o jóquei não escutou. Quando menos se espera, o rival emparelha com Tastro.
"Eu quero correr, assim não vale. Larga a rédea", gritava desesperado o pensionista de C. Oliveira, sem ser atendido por Gulart.

"Tudo bem, já vi que você não me escuta mesmo, paciência, assim não dá para continuar", desistia da corrida Tastro. Porém, após soltar essa frase, o alazão viu Acedenir começar a lhe pedir para entrar em carreira, sendo que faltavam menos de 100 metros para o disco e o franco favorito do público turfista, mesmo obedecendo a tardia chamada do jóquei, perdeu o páreo por pescoço.

"Saia já de cima de mim. Vou subir em você e te mostrar como se conduz. Estás de sacanagem! Tinha 400 metros de reta para me colocar em carreira e você me aguarda os 100 finais para me chicotear, fala sério!", reclamava o potro do jóquei ao sair da raia.

Fui ao encontro de Tastro minutos depois do páreo e o mesmo continuava revoltado.
"Se esse tal de Gulart voltar ao meu dorso na minha próxima inscrição, pode anotar ai Karol, irei derruba-lo na cerca. Das duas uma: ou ele estava de sacanagem comigo hoje, ou pensando na morte da bezerra. Como me prejudica assim em um páreo que eu ganharia até de olho fechado? É o tipo de jóquei que nós, cavalos, temos de derrubar na largada, para que o mesmo não atrapalhe nosso desempenho", filosofou o alazão.

Nada acalmava o potro, nem mesmo saber que Acedenir tinha sido suspenso logo após o páreo pela Comissão de Corridas do Jockey Club Brasileiro. De fato, o profissional acabou pegando 60 dias de suspensão, mas o maior prejudicado, sem dúvida, foi o potro Tastro.

"Ele tem de ficar é longe de mim! Não quero mais vê-lo. Se aparecer no meu box, levará um coice. Onde já se viu. Treinei muito, para sair da raia com a vitória e me vem esse Gulart atrapalhar meus planos. É revoltante!", ainda bradava Tastro, seguindo para o caminhão que o levaria para o CT Verde e Preto.

SELIM NOVO PARA XOEMA

A égua Xoema correu bem no 6º páreo da noturna carioca. Ponteou a maior parte do percurso de 1.100 metros, na raia de areia, mas acabou chegando na 3ª posição.
Depois da corrida, a filha de Dancer Man e Pennsylvania Road (Nindiano), criada pelo Haras Truc, conversou comigo.

"Puxa, tô chateada! Queria vencer nem muito por mim, mas principalmente para o Marco Aurélio, que é um proprietário dedicado e vem me ver toda semana. Estava com o páreo dominado, mas meu selim quebrou e o Rodrigo Lepre Santos (jóquei) não tinha como se equilibrar direito. Na próxima, com selim novo, não irei vacilar", avisou a castanha.

Sendo que antes de nos despedir, Xoema aproveitou para alfinetar o treinador V. S. Pedersen.

"Eu até tenho minhas convicções de como quebrou o meu selim. Foram os gatos da cocheira. Algum ou alguns deles deveriam estar dormindo dentro do meu selim, ou usaram o mesmo para brincar de cabo de guerra, por isso arrebentou na carreira. Se algum aparecer no meu box essa semana, será expulso!"

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Olhar de Raio X urgente

Os leitores podem estar surpresos com o título do blog desta semana, sendo que logo irão entender o motivo.

Aos leigos, porém interessados no que pensam os cavalos de corrida, é importante frisar que todo cavalo (acredito que os cachorros também) consegue enxergar no escuro total. Por isso que os treinamentos dos mesmos começam muito antes de surgirem os primeiros raios de sol.

Lógico que os treinadores só fazem trabalhos de tempo quando já conseguem enxergar alguma coisa, pois são seres-humanos e não eqüinos, necessitando de luz para ver alguma coisa.

Por quê todas essas explicações? Simples caro leitor, pelo ocorrido na última quinta-feira, no Hipódromo do Cristal.

Quem não acompanhou o 3º páreo do programa gaúcho do dia 27 de março, fez o mesmo de quem acompanhou, ou seja, não viu nada!

Por isso, fiz questão de entrar em contato com Double Blade, o vencedor da carreira, para que o mesmo contasse o que realmente aconteceu durante o páreo, visto que o locutor local só conseguiu se desculpar perante os turfistas, mas realmente não teve culpa, a imagem era clara, ou melhor escura, ou melhor ainda, sem imagem.

“Tchê, me senti o Seabiscuit (foto) no dia do treinamento para o grande duelo com War Admiral. No filme, que eu assisti na cocheira, mostra bem que apenas nós, cavalos, conseguimos ver alguma coisa no escuro total, pois o homem-aranha (referência ao Tobey Maguire, que interpretou o jóquei) estava morrendo de medo ao subir no dorso de Seabiscuit para treinar no breu. Na quinta-feira passada, o temporal que caiu em Porto Alegre não foi brincadeira, por isso a escuridão invadiu a raia e eu me senti como o grande cavalo americano”, contou o 4 anos.

O filho de Notation e Dolce y Gaby (Hangar), criado pelo Haras Quero-Quero do Sul, ‘narrou’ como foi a corrida.

“O locutor do Jockey Club do Rio Grande do Sul que me desculpe, mas ele não viu nada. Em momento algum tive a vitória ameaçada pelo Columério. Larguei na ponta tranqüilo, tomando só água na cara da chuva e jogando lama em quem estava atrás. O nevoeiro era grande, mas estava próximo da cerca interna, então sabia o que estava fazendo e por onde tinha que seguir. Sentia apenas o A. Santana se equilibrar sobre meu dorso, com certeza também estava com medo, pois não deveria enxergar nada (até perguntei a ele como estava, mas acho que ele não entende o que eu falo, paciência). Ao entrar na reta final, o Columério tentou chegar perto. Como tinha luz nos metros decisivos, mostrei ao jóquei que estava pronto para finalizar o páreo e o mesmo me deixou a vontade. Ganhei fácil, por quase cinco corpos e, em momento algum, me senti ameaçado pelo Columério, conforme ouvi o locutor falar”, retrucou Double Blade.

Sendo que não senti chateação na voz do defensor de Atilano Zambrano Neto por conta do erro do locutor do JCRGS, no qual o mesmo foi logo respondendo.

“De forma alguma fiquei chateado com ele. Afinal de contas, que eu saiba, o único ser-humano que consegue enxergar como nós, cavalos, é o super-homem, graças a visão de Raio X. Sendo que o clube gaúcho não teria condições financeiras de contratar o homem-de-aço para narrar as corridas né? Então, tá perdoado o locutor local tchê”, brincou.

Sem dúvidas, o pensionista de S. Rodrigues venceu de forma tranqüila o GP Estado do Rio Grande do Sul (L.-2200mA), mas se os temporais continuarem em Porto Alegre e os postes de luzes do Jockey Club do Rio Grande do Sul não forem trocados em breve, logo, logo os profissionais terão que conseguir óculos com visão noturna para continuarem a trabalhar, assim como os turfistas que queiram observar as performances dos cavalos na raia gaúcha.

APAGÃO TOTAL NO MINISTÉRIO

Os amantes dos cavalos de corrida também ficaram ‘cegos’ de raiva com a atitude do Ministério da Agricultura do último dia 28 de março e só publicada no dia 31: de revogar a Instrução Normativa nº 21, que permitia o Simulcasting Internacional no Brasil.

Ou seja, a Caixa Econômica Federal avança mais uma vez com o desejo único de dominar todas as apostas no país. Conseguiu, junto à Advocacia Geral da União, que o ministro Reinold Stephanes cancelasse o Simulcasting Internacional sem que o mesmo ouvisse os reais interessados na modalidade de apostas, ou seja, os Jockeys Clubs e os turfistas, visto que os mesmos não teriam condição alguma de entender os cavalos.

Por conta disso, fiz questão de saber da repercurssão da notícia nas cocheiras e as reclamações foram enormes.

“Como vou poder acompanhar a corrida em Santa Anita Park agora, afinal de contas, desejo ir para lá um dia, mas enquanto não vou, fico sonhando, observando as carreiras pela televisão da loja Turff Bet & Sports Bar”, protestou Barèges, potranca de 3 anos que mora na Gávea.

Quem também reclamou muito da retirada do sinal foi a estreante Mega Luz. “Morava em São Paulo e lá não tinha sinal internacional. Vim para o Rio empolgada para assistir e saber como funcionam as corridas fora do Brasil. Fui pega de surpresa!”

“Assim como alguns jovens atletas humanos curtem assistir o futebol na Europa e sonham um dia poderem ser contratados e levados para lá, nós cavalos também temos a vontade de um dia competir nas principais provas do turfe mundial. Foi fantástico assistir as corridas de Dubai na semana anterior. Me senti lá. Agora, esse prazer me foi tirado. É uma pena!”, lastimou Silver Dodge, de apenas 2 anos.

É leitores, chegamos num ponto em que os binóculos do turfe precisam ter visão noturna e de óculos serem entregues aos políticos brasileiros, para que os mesmos passem a enxergar o turfe nacional não como jogo de azar e sim como uma importante fonte de renda, que emprega milhares de pessoas, ajuda a fomentar a criação de PSI, entre outras positivas funções.

1000 VISITAS

Não poderia deixar de encerrar esse blog sem agradecer aos fiéis leitores, que todas as quintas vêm prestigiar o CERCA MÓVEL. Esta é a 23ª postagem e em quase seis meses no ar, fico feliz em saber que ao menos 1000 pessoas curtiram algumas das ‘estórias’ aqui contadas.

Aguardo a companhia de vocês por mais algum tempo, afinal de contas, aqui os cavalos são ouvidos de verdade.